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1. “Aquela Mirella dos 17 anos não existe mais. Ela foi roubada”, diz jovem que luta pela reparação do rompimento da barragem de Fundão
A lama chegou antes da explicação. Na noite de 5 de novembro de 2015, Mirella Regina de Sant’Ana, então com 17 anos, estava na escola quando soube que a barragem de Fundão havia se rompido. Não sabia o que eram rejeitos de minério, nem que a estrutura ficava tão perto de casa, na cidade de Mariana (MG). Quando o aviso veio, a água barrenta já atravessava o quintal.
A família fugiu às pressas, com a lama na altura do peito. Só no dia seguinte ela reencontrou a mãe. Do alto da comunidade, viu a casa submersa, telhado e memórias misturados ao marrom espesso do desastre. “Eu só queria entender o que estava acontecendo”, recordou.
Dez anos depois, Mirella é uma das vozes ativas na defesa dos atingidos. Ela integra a Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão, participa de audiências judiciais e acompanha a execução dos acordos de reparação. Transformou a perda em militância.
Hoje, aos 28 anos, estuda serviço social em Ouro Preto (MG), escolha que, segundo ela, nasceu da necessidade de compreender o próprio trauma como questão de direito coletivo.
LUTA POR DIREITOS - Criada em Ponte do Gama, zona rural de Mariana, Mirella cresceu onde as casas ficam a até um quilômetro de distância da barragem. Depois do rompimento, veio a mudança forçada para a sede do município, junto com um novo vocabulário: cadastro, indenização, audiência, reparação.
“Por serem comunidades menores, éramos constantemente invisibilizados. Nós nos juntamos e aí eu fui criando um pouco de coragem para conseguir entender que eu teria que me movimentar bastante para ter de volta o que me foi tomado", explicou.
Aos 19 anos, ingressou formalmente na comissão que representa comunidades rurais, muitas vezes esquecidas nas negociações. Desde então, percorre reuniões, fóruns e gabinetes para garantir que os pequenos distritos também sejam ouvidos.
“Não foi só a casa. A lama varreu o nosso modo de viver. Esse modo é a base da vida dessas pessoas, é como ela se relaciona com o território, é a forma como ela escolheu viver”, defendeu.

ESPERANÇA RENOVADA - Agora, Mirella participou, em Ouro Preto, do 1º Encontro Regional do Programa de Fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social (ProFort-SUAS) no Rio Doce. O evento reuniu gestores, trabalhadores do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e pessoas atingidas de 15 municípios.
A iniciativa prevê investimento de R$ 640 milhões ao longo de 20 anos, destinados a 49 municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo, com foco na população impactada pelo desastre. A primeira parcela de R$ 25 milhões já foi repassada em 2025. O valor da indenização do antigo acordo era de R$ 60 bilhões. Com o Novo Acordo Rio Doce, assinado em 2024, o valor passou para R$ 170 bilhões.
“Eu fiquei muito feliz em ouvir as palavras do secretário do Ministério do Desenvolvimento Social, André Quintão. O rompimento da barragem aprofundou desigualdades, aprofundou o grau de vulnerabilidade dessas comunidades. Esse recurso está vindo por causa de um crime que ocorreu”, afirmou Mirella.
Para ela, é a primeira vez que a reparação ganha contornos de política pública permanente.
“A assistência social não é assistencialismo. É proteção. É direito garantido. É o Estado chegando onde a lama deixou vazio”, definiu.
O desastre atingiu cerca de 2,3 milhões de pessoas nos dois estados (1,18 milhão em Minas Gerais e 1,1 milhão no Espírito Santo). Números expressivos, mas que, para Mirella, têm rosto, nome e história.
FUTURO - Quando perguntam onde se imagina daqui a dez anos, ela hesita. A lama não levou apenas paredes. Levou a adolescência. “Ainda estou tentando recuperar minha identidade. Preciso resgatar ao menos parte disso para conseguir pensar no futuro”, refletiu.
O amadurecimento precoce, diz, veio com a própria tragédia. “Aquela Mirella dos 17 anos não existe mais. Eu tive que amadurecer no meio desse processo, que foi extremamente doloroso. Mas a esperança sempre continua e é isso que nos move. Foi uma década difícil, mas seguimos mobilizados. Metade da minha vida já foi marcada por essa luta. O horizonte maior é sempre a reparação justa. E é por isso que nós vamos seguir lutando”, finalizou.
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